Ana.
Um blog sobre uai, sô, véio, contos, causos, sentimentos, pão-de-queijo, crônicas, broa-de-fubá, cinema, literatura, fotografia, arte, poesia...
* Agora em novo endereço: www.mineirasuai.com *
05 outubro 2009
Cegueira
Ana.
20 julho 2009
Tinta Preta
E no interior de um quarto semi-escuro, a mão quase treme e teima em tecer porcas e pobres e desconexas letras, num desafio ortográfico para grafologista nenhum por defeito... O ponto vira traço, um pingo vira letra ilegível, não sei mais se é acento ou rasura.
Rabisco uma vírgula que nem pausa é mais.
Vira um ponto num ponto qualquer de aterrissagem da ponta fina de onde mina minha tinta.
Preta.
Ana.
15 julho 2009
Menino, eu vi!
Eu vi o homem barbudo vindo, olhando o menino e a mãe do menino.
Eu vi a casa na esquina, a rua, carros passando, o muro baixo da casa e o portão branco, enferrujado.
Eu vi o homem barbudo, lá longe, olhando a casa da esquina.
Eu vi o menino parando, a mãe do menino parando e falando ao menino.
Eu vi o menino pedidno e a mãe ascentindo com a cabeça.
E o homem barbudo vindo, olhando o menino.
Eu vi o menino mijando no muro baixo da casa da esquina com seu portão branco, enferrujado.
Eu vi a mãe virando de costas, o homem vindo andando, olhando a casa da esquina e o menino a mijar.
Eu vi o tempo passando e o muro baixo da casa da esquina molhando com um brilho amarelo.
Eu vi o homem barbudo perto do menino. O menino parando de mijar.
Eu vi o menino correndo, o homem barbudo entrando na casa de muro baixo da esquina, abrindo e fechando o portão enferrujado.
A mãe do menino a ralhar.
Ana.
Marcadores: Ana, Conto, E a roda gira
23 junho 2009
Arrebatador (*)
Vou parar de fingir que não quero falar com você todos os dias e parar de fazer o tipo “ocupada todo o tempo”. Não mais fingirei que não fico todos os dias te esperando dar um sinal de vida, tomar mais uma pílula que seja de sua atenção.
Não vou mais fingir que não me decepciono, que toda a minha agressividade, ironia e sarcasmo não são em decorrência de faltas e atitudes.
Não falarei mais com você sobre coisas não corriqueiras, mas sobre como foi o meu dia, perguntarei como foi o seu, admitirei que faço planos, sonho, penso e programo um monte de coisas, erro, grito, xingo, faço xixi e tremo choro quando estou com raiva.
Vou parar de fingir que não me lembro do seu toque, da sua voz. Vou parar de fingir que não me apaixonei por você.
Quero ouvir todas as suas letras, não só as entrelinhas. Quero parar de decifrar símbolos, palavras, reações. Quero simplesmente ouvir que me quer e nada mais. Simples assim.
Vou te falar uma só coisa: esta não é só mais uma historinha de amor, dessas que a gente menciona pros amigos, filhos e netos, um caso, uma aventura, algo que morreu por aí.
Vou parar de enrolar e dizer de uma só vez: eu quero que seja arrebatador.
Ana.
02 março 2009
O Começo do Fim
Marionetes esquecidas num palco de dor e cor. Vimos brilhos e luzes, vestidos, pétalas de cor. Mas não estávamos vivos: manequins de vitrines sem coração... Não conta.
E se o ano começa agora... um, dois e... já!
(Aguardo acontecer.)
Tudo permanece igual, intocado. Ciscos de poeira pairam sob os raios da lâmpada halógena, acima de nossas cabeças. Nem um pio. Nenhuma alma. Apenas um cachorro molhado me encara, com ar de abandono. Cheira a beirada do vidro, e o focinho molhado encontra só cimento frio. Eu, impassível. O canino faz um muxoxo, franze as orelhas e crocita desesperado. Nada. Olha em torno, olhos de gato rompem o silêncio. E lá vai ele, se distrair com novas aventuras.
Sinto um cheiro doce inebriante. Será este o cheiro do mel? Algo coça meu nariz... Atchim! Pimenta, só pode ser. Um movimento em falso, dispara o alarme. Manequins também querem viver! Não apenas brincamos de faz-de-conta-que-é-assim.
Temperamos o foundue de nossas roupas com a mistura de sonhos e pulsos vibrantes. E a luz que cega a noite tromba em outros pés e outros cheiros. Tropeço por várias vezes, desacostumada a caminhar.
Será que viver é assim?
Cair, levantar?
Ensaiamos o futuro, vivemos no passado.
E o presente, sempre ausente, cai como um raio.
Relâmpago chega e já foi.
E se a vida começa agora...
Ana.
03 fevereiro 2009
Memorial
Temo pela memória dos faróis, entes frios e empostados, vendo tudo quanto há, até o homem a pastar pães amassados, até mães desmanteladas. São asas quebradas de pássaros sós.
Temo pelo som que nunca ouvi, tremo pelas melodias dos vitrais empilhadas nos lençóis da sua cama de bilhar, manchada pelo fungo, pelo fundo do meu poço que empoçou em sua mente, e não te saiu da cabeça. E não pôde dormir mais.
Pilhei uma quimera da horta do rei. Gravei um escudo em cada ponta dos dedos. Impressões digitais padronizadas em polegares estranhos... Escadaria em paredes? Não, notas e gestos particulares, como processos mnemônicos para não esquecer o que ainda está por vir -- explico, ainda atônita, já que pleonasmo demais causa excesso às vistas.
Vísceras encharcadas relembram DNA derramado em mesa de estar, noite anterior, calafrios e caipirinhas. E o virol do esquecimento cobre, impiedoso, quem não sabe nada e de tudo se despede, sem saber se já foi ou se ficou. Mais ou menos como postes e faróis, inanimados, empertigados, empoeirados seres invisíveis, imóveis, hiatos.
28 janeiro 2009
Butecando
Estrupício decide, então, o reino pelo gabola, e os sem-noção apagam as luzes que alumiam apenas asas de mariposas rodopiantes. Sozinhas no escuro, cantam melodias de comédia em pó. E haja ouvido para quem quiser escutar.
Só não se sente ao lado, ali, naquela mesa do bar.
Ana.
Darío Velasco expõe no dia 30/01, em BH na 4ª Edição do Quadrinho Nacional!
20 janeiro 2009
Se A, então B
Sonhei com números, acordei dividida.
Multipliquei dúvidas por aliterações
Dividi o sonho entre dor e paz.
O que me restou?
Paixão e sentimento exponencial
Amor: número primo, indivisível.
A raiz quadrada do sonho se desfaz
Sobra sexo, sono, som, fumo
Atos cotidianos que tendem ao infinito
Acordar, urinar, continuar
E sonhar acordada com cifras e milhares de milhões
Acasos formam efemérides e me dão noites sem dormir
De cor
Decoro
O coro
Decifro números, incógnitas e palavras
Frases lógicas brotam
Intrínsecas ao ser ou não ser
Senão, nada mais irracional que
Não estar
Não ser
Não te ter.
Ana.
15 janeiro 2009
Artesão
Suspira. Olha para longe - ignora minha presença. Acaricia o bigode e alguns fios apenas de sua barba, meticulosamente toca em cada um, arrumando-os, reposicionando o que já não é muito organizado. Ajeita na frente de si o caderno, em posição exatamente perpendicular à borda da mesa. Ao lado, uma xícara de café frio repousa, a colher suja pende para um dos lados. Mais à frente, cinzeiro, isqueiro e maço de cigarros espreitam, pacientemente - como eu.
Alisa a folha escrita. Acaricia as palavras ali deixadas, amantes guardadas como um tesouro. No plural. São centenas de folhas e dezenas de cadernos, menores ou iguais a este.
Um brilho no fundo do olhar faísca ideias, que rastreia sobre o papel com a caneta que ganhou de brinde promocional. Gentileza para uns, salvação para outros, dependentes das letras e dos escritos - uma caneta, dez, vinte, nunca é o bastante.
E assim, vez por outra produz maravilhas - outras, nem tanto - em vocábulos fonéticos, frases e orações. Por horas a fio, sob a luz do abajour, sem sair do lugar, viaja pelos séculos, vai e volta a terras longínquas e... continua aqui.
Artesão de palavras. Escritor. Segue seu caminho de pautas, margens e pingos nos is.
Ana.
(Texto e foto: Ana Letícia.)
02 janeiro 2009
Em pílulas
Eu não tenho um ângulo bonito
Não tenho paz
Não tenho pás
Nem sei como se faz
Ou se é atrás.
E se você não tem lóbulos
Dê-me logo meus glóbulos
De açúcar para remediar
Minha falta de ângulo
Minha falta de dor
De cor
De amor teu.
Quero gotas maiúsculas
E coisas minúsculas
Para guardar por entre minhas curvas
Dentro de meus retângulos circunflexos
De sentimentos convexos
Ósculos e amplexos
Que um dia você me deu.
Ana.
11 dezembro 2008
Síndrome
Aguardo um milagre... Um acontecimento? Não, apenas algo (ou alguém) passando por mim que me faça transcorrer impulsos nervosos do cérebro à mão. Fotografias mentais, palavras rebordadas, desenhadas, escorrerão de minha pena preta, juro.
Temo não conseguir chegar a lugar nenhum, o que está por vir, inesperado, fatal. Tremo um bocado, mas teimo em continuar. Padeço da cegueira do mundo estranho, do ninho de espinhos.
E no momento em que todos somem, não há nada pra me deter. E o que se fala ao meu redor não importa mais. Não há fronteiras, sons. Apenas um vácuo na existência. Sou matéria exposta, sou intempérie, fratura que dói, sou lágrima que não escorreu, sou o amor que ainda está por vir. Sem exclamações. Zen.
(Sinto pena de mim, por não poder me ver agora, momento único entre a síndrome da folha em branco e a síncope de criação.)
Agradeço à reciclagem, à folha parda, à ponta de aço que roça sobre o papel, deixando rastros de tintura e emoções à superfície da margem.
Rezo em transe sobre o caderno que abriga parcos sentimentos em pautas azuis. Dois pontos:
-- Palavras cruas são vírgulas fora do lugar.
Reticências. Um dia, quem sabe... Virarei a página.
Eterno recomeço.
Caderno aberto, caneta na mão. E eu lá, quieta, esperando... Esperando...
Ana.
Já que o Natal está chegando (e o meu aniversário também - dia 21!!!), não custa nada dar uma passadinha na minha lista de desejos, e abrir a mão um tiquim, né? ;-)
09 novembro 2008
Lado B
Às vezes tudo o que consigo fazer é parecer pior que jamais pretendi.
Ficar a 1000 léguas de distância ao fim de tudo, do lado oposto ao que pretendia estar.
Esta é a minha arte.
Mandar quando não posso mandar
Não falar quando preciso falar
Chorar na hora errada
Rir nos piores momentos
Soar estranha como um sino que desafina
Ao fim da tarde de um domingo de mormaço em seus braços.
E me pergunto: por que sou assim?
Então me diz que não estou errada
E que vai dar tudo bem
E que o mundo é pequeno demais para todos os problemas insignificantes
E é aí que eu sei que desandei
Como creme de leite que talha
Ou o leite que entorna quando ferve em demasio.
O que fazer?
Apagar o fogo, assoprar o leite e rezar
Pra espuma baixar
Limpar a ferida
Enxugar as lágrimas
E que a maquiagem não borre
Jamais.
Ana.
04 novembro 2008
Os nossos
Então ouvi os sons
Criança correndo, brincadeira com balão
Risos ativos, passos corridos, pique-esconde, escorregador
Então pensei
Nosso quintal
Nossos a saltar
Nossos frutos
Nossos sonhos
Nossos dias, corpos nus
Cem palavras soltas
Sem ar
Então abri os olhos.
Ana.
***
Extra! Extra!
Amanhã sairá uma entrevista com meu avô, o Soié do blog Ontem & Hoje, no jornal "Folha de São Paulo"!
(Sim, meu avô, de 85 anos recém completados, também é blogueiro.)
Prestigiem!!!
www.ontem-hoje.blogspot.com
Inté mais ler...
Ana.
19 outubro 2008
Duas faces
O bispo, horrorizado, assiste a tudo de camarote em sua torre, uma taça de espumante na mão a delirar. Sonha mundos com tapetes voadores, donzelas inocentes e anjinhos a rezar. Os mesmos que hoje em dia trabalham como peões, em tabuleiros e plantações. Erguem tijolos sobre espadas, plantam flores entre os paus. Estacas que escalam copas e servem doce-de-leite ao jantar.
Uma canastra em forma de queijo da serra se posta, meia-cura, em cima d'uma emperiquitada Lua. Derrete-se em gotas puxa-puxa pelo Sol, o mesmo que nos aquece e queima os ralos belos cabelos castanhos da Rainha, envolta em manto azul aveludado com brocais. Nem percebe a fumaça a subir, de tão boba, esnobe a cacarejar empoleirada no seu canto, contando vantagem até a saliva viscosa babar. Mas não passa de dama matreira, donzela faceira que, de tanto pular, de galho em galho, há muito já se esqueceu o que é amar.
E o valete agora, onde está? Com o Coringão, a passear. Sozinhos nada podem fazer, mas se encontrarem uma rapariga num altar de Santo Antônio a rezar, nesta colarão até que alguém os mande soltar.
Parado como um dois de paus, pasta um cavalo com o porte de um ás. Já fora um garanhão, mas hoje nem pode sonhar. Abana o rabo prum mosquito, que pede pra pousar. Um pouco de companhia é de grande valia, minutos antes de cagar a escória do mundo atrás da moita, ou na água do mar.
Ana.
12 outubro 2008
Duo
Dia vazio.
Nó no peito, também vazio.
Alma vazia de esperanças, rasas, ralas, profundas esperanças que (des) colorem o céu de branco e preto.
Mas quando tudo é assim, pouco, o outro lado está cheio. Recheio de palavras que não vão, pensamentos que não são, hesitações manifestantes.
A vida se enche de vento e se cerca de nós emaranhados, por entre assovios e cotoveladas. Nós, abraçados, aguardamos o dia que não vem.
A alma vazia de cores e plena de sons soturnos insufla o peito... Que se retrai.
Como? Não me perguntem. Não sou especialista.
Hoje o dia amanheceu assim.
Cheio de vento.
Vazio de vida.
Bicolor.
Ana.
15 setembro 2008
Ensaio sobre a ignorância
Vai embora sem nem olhar pra trás. Leva consigo um cobertor apenas (orgulho?), um par de penas de escrita em tinteiro, seu caderno de notas, mais aquele CD do Chico. Com isso, crê que a vida está completa. Mas para onde vai, se não tem janelas? Para onde leva seus pensamentos em nanquim?
Ao observá-lo, faço tempestade de rosas, pinto uma silhueta negra no céu azul. Ao longe, seguindo o caminho de tijolos amarelos trilhado por pequenos homens de paletó escuro, um pote o espera, no final do arco-íris. Não há ouro dentro dele, apenas um líquido quente e vermelho. Sangue? Não sente dor, nem cheiro de carne, não ouve gritos de horror! Nada disso. É apenas o próprio reflexo do amor que jorra de seus pulsos, a cada pulsar de pares, átrios e ventrículos.
E quando, finalmente, olha pra trás, vê que tudo permanece como deixou, em seus mesmos lugares: mamilos pelo chão, confetes pairando no ar, vapor de perfume de rosas, água quente em cachoeira. E então as lágrimas azuis se secam de imediato com as mechas de mel em camadas, que o abraçam ternamente como sempre o fizeram. O mesmo cheiro está lá, inebriante, e até o radinho de pilha AM toca uma melodia simples, a sua favorita desde então.
Decide ir embora mais uma vez, mas agora não estaria sozinho. Carregaria consigo sua casa, carregaria o seu cheiro, suas lembranças, seus livros e discos, em sua mente e seu ser, e, cheio de confiança e suspiros, caminharia por sua própria trilha de tijolos cravados de sua carne, seu suor, seu ser.
Ana.
28 julho 2008
Parou, olhou, chutou...
Prefiro as respostas imediatas às pensadas, medidas, dosadas. Mesmo que sejam apenas 45 segundos, estes seriam os mais demorados da minha vida. Não sei o significado que um procrastinador daria pra eles, mas com certeza não seria o de ignorar. Contudo, eu ainda constataria, com enorme certeza, que este sim seria o raciocínio mais rápido do mundo para se escolher meticulosamente palavras em doses pilulais, como remédio de criança, como paracetamóis de ação prolongada. Quando o que eu precisamente desejaria seria um tapa logo na testa, uma rajada de vento gelado e cortante, uma bolada no travessão, nos acréscimos da prorrogação.
Não pense que homeopatia não dói. É sim, muito doloroso engolir verdades comprimidas, cápsulas de português bem falado misturado com lágrimas veladas em glóbulos. Assim como dói agarrar boladas chutadas ao léu, tomar balas perdidas ou escarros de escárnio, gotículas de própolis pura em ferida aberta.
Mas a madrugada fria que me congela o pensamento traria consigo a ignorância e a certeza de que o assistiria parar na marca do pênalti e pensar. E desta vez, não seriam 45 segundos apenas.
E então, aos 46 minutos do segundo tempo, o árbitro apitaria, erguendo o braço, e depois o apontando ao centro do campo.
Fim de jogo. Um a um.
(Uma maca aparece campo adentro e encontra um coração despedaçado, juntando delicadamente cada retalho, a costurar com a delicadeza de rendas de bilros. Após três meses de fisioterapia, jogará novamente.)
21 maio 2008
Vale à pena ler de novo
O post de hoje é um pequeno conto, publicado neste blog em 27 de julho de 2007... Nunca é tarde para ler de novo.
Tato chega com sua mochila. Encabulado e exausto, toca no ombro de Line e sorri com os olhos:
- Oi... – Ele diz, meio sem jeito... Sem saber o que dizer, o “Oi” com voz embargada foi a única coisa que ele conseguiu proferir.
Line se vira assustada, e se espanta mais ainda ao ver Tato bem ali na sua frente. O abraça imediatamente, dando-lhe um beijo estalado no pescoço, próximo à orelha. Sente seu cheiro, escondido atrás dela, próximo do cacho de seus cabelos castanhos: shampoo de camomila, sabonete neutro, cravo, canela, homem. Os mesmos cheiros que ela sentira em seus livros, seu quarto, suas cartas. Ela se lembrava...
- Ahhnn? Como assim? Não acredito que está aqui! – Exclama, deixando transparecer uma alegria incontida em seu tom de voz.
As bochechas rosadas dele não a deixam enganar, corado de timidez e felicidade, tudo ao mesmo tempo. Traz ainda um envelope murcho em sua mão molhada de suor, ansiedade que ele tenta disfarçar.
- Vim te ver... E te entregar... isto. – Estende a mão com o envelope em direção a ela, ainda encabulado, fita o chão.
Line procura seus olhos e toma o envelope. Ele levanta a cabeça e a encara, respirando fundo. Com a outra mão, ela segura a mão livre dele, gelada. O abraça novamente, emocionada. Carinhosamente, ele toca seus lábios num beijo doce e leve. Ela sempre adorou o jeito meio sem jeito que ele a beijava quando não sabia o que fazer.
Agora ela olha para o envelope.
- Está meio vazio isso aqui, heim? – Ela percebe que o envelope amarelo, apesar de aberto, estava endereçado a ela. Dentro, vê um pequeno bilhete e um selo.
- É a resposta de sua carta, Line... – Tato diz, com convicção. Ele sabia que ela reagiria desta forma, já estava acostumado com seu jeito direto de dizer as coisas, sem papas na língua. Ele gostava daquilo, pois sabia que ela era incapaz de mentir.
- Sério? Poxa, eu escrevo 11 páginas procê, e cê me responde com apenas um bilhete e um selo? – Diz ela sorrindo, com um tom de comédia na voz, só pra provocá-lo...
Ele solta sua gargalhada característica, não cai nas provocações dela, apesar de adorar aquele jeitinho meio bravinho e brincalhão que só ela possuía. Ele a entendia e adorava!
– Não, Line: o bilhete, o selo, e EU, né? – Responde ele, apertando-a novamente contra seu peito. Os dois sorriem.
Ela finalmente retira o bilhete de dentro do envelope, dobrado ao meio. Abre e vê a foto dos dois, do último encontro, impressa em branco e preto. Embaixo, a letra dele, cuidadosamente grafada com caneta de tinta preta:
***
05 março 2008
Paixonite
Então um dia eu o vi. Um pouco mais jovem que eu, alto, forte. Cabelo grisalho, sempre muito bem penteados para trás. Um pão!!! Fiquei observando ele passar por mim e, para minha surpresa, chamou-me pelo nome!!!
- Maria!
- Oi... Sorri, meio sem graça, com as faces rubras.
Ele passou. Atravessou a rua e entrou no prédio da frente. Então ele morava ali! Passei a esperá-lo todos os dias. E sempre era assim. E assim fui me encantando a cada dia mais, me apaixonei por aquele homem misterioso que sabia meu nome sei lá como... Todo dia nos cumprimentávamos daquela forma. E todo dia eu me empetecava mais: passava batom e talco, colocava meu melhor vestido.
E engatamos uma conversa muito agradável. Foi aí que descobri que ele se chamava Adalberto, e que era também viúvo, assim como eu. Muito inteligente e delicado. Me tratou tão bem! Mal poderia ele imaginar que eu, logo eu, estaria morrendo de amores por ele... Sonhando com aquele momento há tanto tempo... Sonhando tantas coisas mais. Até que...
Até que... o interfone cessou.
Ah! E se alguém conhecer o Adalberto, me avise antes que Dona Maria morra de amores...
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