(*) Burning Sky - Belo Horizonte/MG - Photo, Art: Ana.
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10 novembro 2009

Cimento cozido

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Solzinho

O silêncio cega, mutila minhas mãos.
Aleijada, sigo no pasto: comer, dormir, acordar, trabalhar.
O ritmo da cidade engole e cospe sangue e fezes
No mesmo prato
Digere ratos, tritura fracos.
Oprimida, sigo por entre os que oprimo
Odiada pelos que odeio
Destemida, despudorada.
No mundo que não é de marshmellow
O chão fofo cede lugar ao cimento duro e cozido
Não há nuvens suficientes
O calor derreteu
Não há ácido suficiente
A pele descamou, o cérebro dissolveu
E o menino atravessa a rua de mãos dadas com o acaso
Desnudo, desnutrido, desavisado.

Ana.
(Texto e foto: Ana Letícia.)

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18 outubro 2009

Warning

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Perigo, eu posso voar
Vou correr até me afogar
Perigo, eu posso sonhar
Vou comer até me acanhar
Perigo eu posso ser eu
Atracar os pés no chão e enxergar que é preciso sentir medo pra gente andar.

Ana.
(Texto e foto: Ana Letícia.)

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25 agosto 2009

Desejos

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Faça um pedido, eu vou te mostrar.
Um desejo apenas, que vou te brindar.
Faça o que eu faço, vou te falar:
Uma moedinha vou atirar.
Jesus pequenino, me faça um favor,
Atenda o meu pedido, uma boneca e uma flor.
Uma bicicleta, pro menino ao lado.
E que tenha sempre comida no prato.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

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12 agosto 2009

I.M.P.E.R.D.í.V.E.L

Dica pra galera de Sampa, que não pode perder este lançamento de jeito nenhum!


EGA: O que nem Freud explica.
"Karla Jacobina é poetisa desde que se entende por gente e seu plano para o futuro é continuar sendo até morrer de velha. Bicho-do-mato-grosso domesticado por São Paulo. Bacharel em Direito, mas esse é um segredo que pretende não deixar para inventário, pois levará para o túmulo. Filha adotada de Iemanjá, Odo-Iyá! Morou a vida em apartamentos, razão de suas habituais infiltrações. Poderia ser claustrofóbica, mas aprendeu antes do medo a desenhar linhas de chegada. Caju mancha e mentira também. É míope, um e vinte e cinco de cada lado, mas enxergar através de lente de contato comprada lhe deixa cega. Dança é uma faísca que escapa dela. Poesia é outra."
www.karlajacobina.com

Ana.

20 julho 2009

Tinta Preta

Porto Seguro, Bahia 173

Tantas palavras corrrem e a tinta escorre no tubo que roça com a língua entre linhas espaçadas de um caderno só. Afinal, é apenas um caderno, é apenas uma vida, uma caneta em sobrevida, que nem marca se vê mais. Se bem que diferença alguma iria fazer, já que a língua japonesa ou oriental que seja, dos confins de onde se originou meu artefato de escriba, não é coisa com a qual eu tenha intimidade.

E no interior de um quarto semi-escuro, a mão quase treme e teima em tecer porcas e pobres e desconexas letras, num desafio ortográfico para grafologista nenhum por defeito... O ponto vira traço, um pingo vira letra ilegível, não sei mais se é acento ou rasura.

Rabisco uma vírgula que nem pausa é mais.
Vira um ponto num ponto qualquer de aterrissagem da ponta fina de onde mina minha tinta.
Preta.

Ana.
(Texto e foto: Ana Letícia.)

03 maio 2009

Cruzadas

Lua Gigante

E eu que nunca fui santa, um dia aprendi
A subir no salto e não cair em falso
Pés que se cruzam numa rua torta chamada amor.

E eu que nunca fui besta, um dia freira tornei
Na sexta-feira me atrasei, beata virei, num reza e lava sem parar
Mãos que se cruzam em prece e tocam o coração de quem passar.

E nós que somos tudo e não somos nada
Que somos juntos e estamos surdos
Calados no meio do barulho do mundo
Gritamos na rua torta pra ninguém escutar
Cruzamos os dedos e caímos juntos
E tocamos os pés com o luar
As mãos sob lençóis pescam paisagens e anzóis

Amor de dois
Dor depois.

Ana.
(Foto e texto: Ana Letícia.)

25 abril 2009

nó

Natureza viva (morta)
simples tom em si maior
me faz ser menos eu
me faz ser menos tua
me faz ouvir o que eu não quero
e dizer o que eu não sei
se eu não sou eu
e se nem ao menos sei quem sou
aonde vamos chegar com tanto quiprocó?
sem um sorriso, uma cova de estar
um laço na estrela
um nó no meio do mar
não chego
não falo
não sou perfume, vinho, pó.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

06 abril 2009

r.a.r.e.f.e.i.t.o.

Soberbo

a cegueira do silêncio da noite
te nega e custa a chegar

não quer o gosto do oposto, o jeito do não
abraça o chão
inflama o vermelho, queima, dói
faz cortar
e não me fale de flores quando as dores insistem em ter razão

joga os dedos ao vento e o espera
como um alento para a cara secar
pútrido e abatido, parado e sofrido, ele chega
sem nem assoviar
derrete em carne a pele - parafina e pó-de-arroz
estanca a cicatriz com estopa de algodão-
-doce ilusão
a casca se quebra
tinge rubros cabelos e lençóis
levanta poeira e o elo liquefeito
é raro efeito
desfazendo-se em tuas mãos

com licença, é preciso sorrir
na esquina compre pílulas de felicidade
torne a dormir.

Ana

(Texto e foto: Ana Letícia.)

24 março 2009

Impossibilidades Reais

Fitas

Eu nunca não tenho nada a dizer, mas sou bom ouvido.
Só que ouvir às vezes cansa.

Humor intalado, amor enlatado, às vezes é bom usar um abridor, girar a torneirinha e deixar fluir. Sai casca, sai sangue, sai lágrimas, sai dor...
E vai embora pelo ralo.

Escorre um beijo no canto da boca, molha o molho do tom maior, que cai na clave de sol fazendo chuá.
Toca o sino pra parar de chorar.
Dia de oração, é dia de respirar.

Homenagem aos dias que se foram, saudades dos que estão por vir.
Se chorei ou se sorri, tudo vale à pena, se a alma da pequena, inflada de poesia, flutua por aí numa nau de emoções vividas, caras partidas e braços torcidos.

E chego à conclusão: amar nunca é demais.

Ana.
(Texto e foto: Ana Letícia.)

09 março 2009

Ali

I am sailing

Me deixa dizer que não estou nem aí
Não estou nem aqui
Quanto menos ali
Me deixa esquecer o que senti
O que sei e o que não quero saber
Me deixa querer viver sem dormir
Não ouvir nada além de ir
E vir
Me deixe só
Sentidos
Arrepio nos ouvidos
Alegria boba
Um mergulho num mar de olhar
Saltarei piscando
Quem sabe voar?
E correndo vou
Até aí.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

17 fevereiro 2009

Dois

Flor de espinhos

Excito linhas

Enxugo rugas

Endureço mamilos
Pistilos em flor

A boca que umedece
Me aquece

Transpira o que é do bom

Cavalga com deuses
Desce ao inferno
Riso, choro, poesia, música

Silêncio.

Dois. Pois, sejamos.
Sois.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

20 janeiro 2009

Se A, então B

Filosofia de banheiro

Sonhei com números, acordei dividida.
Multipliquei dúvidas por aliterações
Dividi o sonho entre dor e paz.
O que me restou?
Paixão e sentimento exponencial
Amor: número primo, indivisível.
A raiz quadrada do sonho se desfaz
Sobra sexo, sono, som, fumo
Atos cotidianos que tendem ao infinito
Acordar, urinar, continuar
E sonhar acordada com cifras e milhares de milhões
Acasos formam efemérides e me dão noites sem dormir
De cor
Decoro
O coro
Decifro números, incógnitas e palavras
Frases lógicas brotam
Intrínsecas ao ser ou não ser
Senão, nada mais irracional que
Não estar
Não ser
Não te ter.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

02 janeiro 2009

Em pílulas

Miudeza

Eu não tenho um ângulo bonito
Não tenho paz
Não tenho pás
Nem sei como se faz
Ou se é atrás.
E se você não tem lóbulos
Dê-me logo meus glóbulos
De açúcar para remediar
Minha falta de ângulo
Minha falta de dor
De cor
De amor teu.
Quero gotas maiúsculas
E coisas minúsculas
Para guardar por entre minhas curvas
Dentro de meus retângulos circunflexos
De sentimentos convexos
Ósculos e amplexos
Que um dia você me deu.

Ana.

22 dezembro 2008

11 dezembro 2008

Síndrome

Milagres

Caderno aberto, caneta na mão. E eu lá, quieta, esperando... Esperando...

Aguardo um milagre... Um acontecimento? Não, apenas algo (ou alguém) passando por mim que me faça transcorrer impulsos nervosos do cérebro à mão. Fotografias mentais, palavras rebordadas, desenhadas, escorrerão de minha pena preta, juro.

Temo não conseguir chegar a lugar nenhum, o que está por vir, inesperado, fatal. Tremo um bocado, mas teimo em continuar. Padeço da cegueira do mundo estranho, do ninho de espinhos.

E no momento em que todos somem, não há nada pra me deter. E o que se fala ao meu redor não importa mais. Não há fronteiras, sons. Apenas um vácuo na existência. Sou matéria exposta, sou intempérie, fratura que dói, sou lágrima que não escorreu, sou o amor que ainda está por vir. Sem exclamações. Zen.

(Sinto pena de mim, por não poder me ver agora, momento único entre a síndrome da folha em branco e a síncope de criação.)

Agradeço à reciclagem, à folha parda, à ponta de aço que roça sobre o papel, deixando rastros de tintura e emoções à superfície da margem.

Rezo em transe sobre o caderno que abriga parcos sentimentos em pautas azuis. Dois pontos:

-- Palavras cruas são vírgulas fora do lugar.

Reticências. Um dia, quem sabe... Virarei a página.

Eterno recomeço.
Caderno aberto, caneta na mão. E eu lá, quieta, esperando... Esperando...

Ana.

(Texto e foto por Ana Letícia.)
***

Já que o Natal está chegando (e o meu aniversário também - dia 21!!!), não custa nada dar uma passadinha na minha lista de desejos, e abrir a mão um tiquim, né? ;-)

30 novembro 2008

TRAPICHES 2 - JÁ ESTÁ NO AR!

O segundo número da Revista Trapiches, nossa e-magazine sobre cultura, já está no ar, totalmente remodelada!

Esta é a capa:

Trapiches 2


Esperem só pra ver o conteúdo!

Acessando o site, vocês poderão ler todas as matérias, inclusive meus textos para a Revista Trapiches, nas seções:
  • "A Granel" - Matéria e entrevista com o cartunista de BH, Darío Velasco;
  • "Grãos" - Um mini-conto (Vício) e uma poesia (Escrivinhadeira);
  • "Olho Mágico" - Crônica sobre o filme Estômago, no Festival de Cinema de Tiradentes.
***

HOJE, em São Paulo, vai rolar um SARAU na Casa das Rosas (Av. Paulista, n°. 37), para o lançamento do n° 2 da Revista Trapiches, cria do Projeto Macabéa, a partir das 19h.

Banner


Até mais ler!

Ana.

23 novembro 2008

Ghost Writer

Momento lembranças...

Vestido de fita
Cintura de pilão
Flanela, salopete
Saia de balão
Sinto muito se o seu cinto
Não é fino como o meu
Se eu não fosse pequenina
Mini-saia, pés-no-chão
Me amarrava em colo teu
E subia num balão
Vestida de chita
Ou pano de chão
Se eu me chamasse Rita
Seria mais uma rima
E não uma assombração.

Ana.

[Texto e foto (de foto): Momento Lembranças...]

16 novembro 2008

Eu tenho medo de quê?

Vazio

Notícia ruim
Ouvir o que não quero
Falar o que não devo
Acidentes de percurso
Pouca luz
Muita claridade
Barata
Cheiro de vela velha
Casa vazia
Ovo podre
Esgoto
Sorrisos falsos
Abraços magros
Beijos parcos
Cozinhas porcas
Risos poucos
Gritos tortos
O mundo adormecer
E o dia amanhecer
Sem paz.

Ana.

09 novembro 2008

Lado B

Oxigênio

Às vezes tudo o que consigo fazer é parecer pior que jamais pretendi.
Ficar a 1000 léguas de distância ao fim de tudo, do lado oposto ao que pretendia estar.
Esta é a minha arte.
Mandar quando não posso mandar
Não falar quando preciso falar
Chorar na hora errada
Rir nos piores momentos
Soar estranha como um sino que desafina
Ao fim da tarde de um domingo de mormaço em seus braços.
E me pergunto: por que sou assim?
Então me diz que não estou errada
E que vai dar tudo bem
E que o mundo é pequeno demais para todos os problemas insignificantes
E é aí que eu sei que desandei
Como creme de leite que talha
Ou o leite que entorna quando ferve em demasio.
O que fazer?
Apagar o fogo, assoprar o leite e rezar
Pra espuma baixar
Limpar a ferida
Enxugar as lágrimas
E que a maquiagem não borre
Jamais.

Ana.

(Texto e foto: Oxigênio.)

04 novembro 2008

Os nossos

Balanço

Então ouvi os sons
Criança correndo, brincadeira com balão
Risos ativos, passos corridos, pique-esconde, escorregador
Então pensei
Nosso quintal
Nossos a saltar
Nossos frutos
Nossos sonhos
Nossos dias, corpos nus
Cem palavras soltas
Sem ar
Então abri os olhos.

Ana.

(Ana: Texto e foto - Balanço. Modelo: Eduardo.)

***

Extra! Extra!

Amanhã sairá uma entrevista com meu avô, o Soié do blog Ontem & Hoje, no jornal "Folha de São Paulo"!
(Sim, meu avô, de 85 anos recém completados, também é blogueiro.)

Prestigiem!!!
www.ontem-hoje.blogspot.com

Inté mais ler...

Ana.