(*) Burning Sky - Belo Horizonte/MG - Photo, Art: Ana.
Um blog sobre uai, sô, véio, contos, causos, sentimentos, pão-de-queijo, crônicas, broa-de-fubá, cinema, literatura, fotografia, arte, poesia...
* Agora em novo endereço: www.mineirasuai.com *

01 dezembro 2008

O vírus

Bug

E se o amor fosse um vírus, já estaria contaminada. Infectada, sintomática, febril e delirante. Os sintomas se manifestariam e irradiariam pelos cabelos jogados ao vento, suspiros soltos pelo ar.

O desejo se manifestaria: de tocar e ser tocada todo o tempo, beijar, olhar, sentir cheiro de lembrança...

E então carregaria consigo o torpor da gripe, o ardor em seu corpo torto, manchas da doença cravadas em sua alma, como tatuagens de fogo, pele de carvão em brasa, rocha derretida, exalando perfume de capim limão.

Vontade de viver, pura e simples. Significados múltiplos em singelos afazeres e tilintar de dedos e impressões digitais...

Espirraria em alegria, assoaria o nariz transbordando coriza apaixonada em seu lenço de cetim. E o fluxo de amor correria em suas veias e a viciaria para sempre, e necessitaria dele para permanecer caminhando, em relação sine qua non, como o oxigênio e a fotossíntese.

E então, o vírus arrebatador, invadiria sua mente, romperia suas senhas e segredos, descobriria labirintos de memórias nunca dantes vasculhadas, derrubaria mitos, verdades, muros de arrimo e ouro em pó.

Até que estancaria por ali, do lado esquerdo do peito, de onde nunca mais pudesse sair, expulsando de lá os restos de pedaços de órgão destroçado e embolorado que um dia existiu, tomaria seu espaço, preenchendo as lacunas em formato de coração, derramaria paixão.

Cuidado. Pode ser contagioso.

Ana.
(Ana: Texto e foto - Bug.)

***

Já que o Natal está chegando (e o meu aniversário também), não custa nada dar uma passadinha na minha lista de desejos, e abrir a mão um tiquim, né?

30 novembro 2008

TRAPICHES 2 - JÁ ESTÁ NO AR!

O segundo número da Revista Trapiches, nossa e-magazine sobre cultura, já está no ar, totalmente remodelada!

Esta é a capa:

Trapiches 2


Esperem só pra ver o conteúdo!

Acessando o site, vocês poderão ler todas as matérias, inclusive meus textos para a Revista Trapiches, nas seções:
  • "A Granel" - Matéria e entrevista com o cartunista de BH, Darío Velasco;
  • "Grãos" - Um mini-conto (Vício) e uma poesia (Escrivinhadeira);
  • "Olho Mágico" - Crônica sobre o filme Estômago, no Festival de Cinema de Tiradentes.
***

HOJE, em São Paulo, vai rolar um SARAU na Casa das Rosas (Av. Paulista, n°. 37), para o lançamento do n° 2 da Revista Trapiches, cria do Projeto Macabéa, a partir das 19h.

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Até mais ler!

Ana.

23 novembro 2008

Ghost Writer

Momento lembranças...

Vestido de fita
Cintura de pilão
Flanela, salopete
Saia de balão
Sinto muito se o seu cinto
Não é fino como o meu
Se eu não fosse pequenina
Mini-saia, pés-no-chão
Me amarrava em colo teu
E subia num balão
Vestida de chita
Ou pano de chão
Se eu me chamasse Rita
Seria mais uma rima
E não uma assombração.

Ana.

[Texto e foto (de foto): Momento Lembranças...]

16 novembro 2008

Eu tenho medo de quê?

Vazio

Notícia ruim
Ouvir o que não quero
Falar o que não devo
Acidentes de percurso
Pouca luz
Muita claridade
Barata
Cheiro de vela velha
Casa vazia
Ovo podre
Esgoto
Sorrisos falsos
Abraços magros
Beijos parcos
Cozinhas porcas
Risos poucos
Gritos tortos
O mundo adormecer
E o dia amanhecer
Sem paz.

Ana.

09 novembro 2008

Lado B

Oxigênio

Às vezes tudo o que consigo fazer é parecer pior que jamais pretendi.
Ficar a 1000 léguas de distância ao fim de tudo, do lado oposto ao que pretendia estar.
Esta é a minha arte.
Mandar quando não posso mandar
Não falar quando preciso falar
Chorar na hora errada
Rir nos piores momentos
Soar estranha como um sino que desafina
Ao fim da tarde de um domingo de mormaço em seus braços.
E me pergunto: por que sou assim?
Então me diz que não estou errada
E que vai dar tudo bem
E que o mundo é pequeno demais para todos os problemas insignificantes
E é aí que eu sei que desandei
Como creme de leite que talha
Ou o leite que entorna quando ferve em demasio.
O que fazer?
Apagar o fogo, assoprar o leite e rezar
Pra espuma baixar
Limpar a ferida
Enxugar as lágrimas
E que a maquiagem não borre
Jamais.

Ana.

(Texto e foto: Oxigênio.)

04 novembro 2008

Os nossos

Balanço

Então ouvi os sons
Criança correndo, brincadeira com balão
Risos ativos, passos corridos, pique-esconde, escorregador
Então pensei
Nosso quintal
Nossos a saltar
Nossos frutos
Nossos sonhos
Nossos dias, corpos nus
Cem palavras soltas
Sem ar
Então abri os olhos.

Ana.

(Ana: Texto e foto - Balanço. Modelo: Eduardo.)

***

Extra! Extra!

Amanhã sairá uma entrevista com meu avô, o Soié do blog Ontem & Hoje, no jornal "Folha de São Paulo"!
(Sim, meu avô, de 85 anos recém completados, também é blogueiro.)

Prestigiem!!!
www.ontem-hoje.blogspot.com

Inté mais ler...

Ana.

26 outubro 2008

Sopro

Grand Jettée

A dor que te esvazia o peito, invade minh’alma.
Sinto-a nos meus ossos, o coração murcha ao menor sopro de ventania.
Tua cabeça pesada sob um céu púrpura pende para o lado e jorra pensamentos de cristal.
A minha, firme como um peão em cima de boi bravo,
se fecha num mundo de tempestades e abismo.
Ainda bem que são nuvens passageiras. E o abismo tem chão.
Tem também uma cama elástica.
Uso-a pra pegar impulso e assim vôo alto, num sopro fúcsia juvenil.Alinhar ao centroSe meu corpo virasse sol, espalharia sementes de luz por teu caminho.
Olharias pra mim?
Depois daquela curva, colherias algumas flores?
Logo mais, outras brotariam.
Viriam louros e besouros. Sapos e ferroadas.
E...
Continuarias vivo.

Ana.
(Texto e foto.)

19 outubro 2008

Duas faces

Duas faces

Se até o espelho tem duas caras, o que dizer do Valete de Ouros? Num pé só, pula do cavalo e oferece bebida ao Rei.

O bispo, horrorizado, assiste a tudo de camarote em sua torre, uma taça de espumante na mão a delirar. Sonha mundos com tapetes voadores, donzelas inocentes e anjinhos a rezar. Os mesmos que hoje em dia trabalham como peões, em tabuleiros e plantações. Erguem tijolos sobre espadas, plantam flores entre os paus. Estacas que escalam copas e servem doce-de-leite ao jantar.

Uma canastra em forma de queijo da serra se posta, meia-cura, em cima d'uma emperiquitada Lua. Derrete-se em gotas puxa-puxa pelo Sol, o mesmo que nos aquece e queima os ralos belos cabelos castanhos da Rainha, envolta em manto azul aveludado com brocais. Nem percebe a fumaça a subir, de tão boba, esnobe a cacarejar empoleirada no seu canto, contando vantagem até a saliva viscosa babar. Mas não passa de dama matreira, donzela faceira que, de tanto pular, de galho em galho, há muito já se esqueceu o que é amar.

E o valete agora, onde está? Com o Coringão, a passear. Sozinhos nada podem fazer, mas se encontrarem uma rapariga num altar de Santo Antônio a rezar, nesta colarão até que alguém os mande soltar.

Parado como um dois de paus, pasta um cavalo com o porte de um ás. Já fora um garanhão, mas hoje nem pode sonhar. Abana o rabo prum mosquito, que pede pra pousar. Um pouco de companhia é de grande valia, minutos antes de cagar a escória do mundo atrás da moita, ou na água do mar.

Ana.
(Texto e foto.)

12 outubro 2008

Duo

Café da tarde

Dia vazio.
Nó no peito, também vazio.
Alma vazia de esperanças, rasas, ralas, profundas esperanças que (des) colorem o céu de branco e preto.
Mas quando tudo é assim, pouco, o outro lado está cheio. Recheio de palavras que não vão, pensamentos que não são, hesitações manifestantes.
A vida se enche de vento e se cerca de nós emaranhados, por entre assovios e cotoveladas. Nós, abraçados, aguardamos o dia que não vem.
A alma vazia de cores e plena de sons soturnos insufla o peito... Que se retrai.
Como? Não me perguntem. Não sou especialista.
Hoje o dia amanheceu assim.
Cheio de vento.
Vazio de vida.
Bicolor.

Ana.
(Texto e foto.)

05 outubro 2008

Fui, votei e voltei

Beca dependurada

[...] Por que determinado partido recebe mais votos? Por que certo candidato é eleito numa eleição e é preterido em outras? O que muda na cabeça dos eleitores? [...]

O voto é a indicação, pelo eleitor, do candidato ou candidatos de sua preferência. Todavia, este instrumento de participação na vida política se insere dentro dos direitos políticos do cidadão, e abrange não só o ato de votar, como também o ato de ser votado, tornando-se, então, um conjunto de condições que permitem ao cidadão intervir na vida política. [...]

No decorrer da curta história do Brasil, o povo foi se colocando à margem dos destinos da Nação e assim, fez crescer uma idéia negativa de que no Brasil não são encontradas as condições necessárias para a implantação de um processo democrático verdadeiro. Cabe esclarecer que em nosso País as eleições têm sido realizadas desde a Colonização, com características peculiares em cada momento histórico.

A forma de legitimação concedida pelo sufrágio popular em outras épocas, não se fazia através dos votos dos cidadãos como se conhece hoje. Inicialmente, tal acontecia de forma indireta e em vários turnos. Posteriormente, adotou-se o sufrágio de forma direta e em turno único, mediante o prévio alistamento e sua conseqüente formação do colégio eleitoral. Em determinados momentos, admitia-se o voto censitário, expressamente autorizado na Constituição de 1824.

A renovação na democracia decorre de um exercício constante do poder de seleção. [...]

A perspectiva otimista que se apresenta no Brasil de hoje está longe de se apoiar na inteligência dos eleitores, uma vez que a lei confere aos cidadãos a apenas a capacidade natural do voto, mas não cultura e discernimento a quem não os possui de fato. Como conseqüência imediata, temos que a política se transforma em monopólio dos políticos, isto é, dos que fazem da política profissão e meio de vida. A maioria de nossos representantes, infelizmente, utilizam-se da política e do voto como um instrumento referendatário para a sua permanência no poder e consecução da sua vontade individual.

Existe um ditado popular que apregoa: “vão-se as leis aonde estão os Reis”, o que sugere que o Direito, a norma ou, no mínimo, a resposta que o aparelho judicial irá fornecer na sua missão de dirimir lides, são guiados por motivos políticos e sociais – a solução sempre poderá ser tendenciosa, poderá inclinar-se para o lado dos mais poderosos. Se verdadeiro, este fato atenta contra a consciência popular, para dizer o mínimo. Afronta os princípios constitucionais sobre os quais o ordenamento jurídico brasileiro é erigido. Na verdade, é uma afronta ao próprio direito, em um Estado de Direito. [...]

Trecho extraído da "Introdução" à minha Monografia de Graduação, apresentada em 2003 na UFMG... É rapaz, voto é coisa séria...

Vale a reflexão, né?

Ana.