(*) Burning Sky - Belo Horizonte/MG - Photo, Art: Ana.
Um blog sobre uai, sô, véio, contos, causos, sentimentos, pão-de-queijo, crônicas, broa-de-fubá, cinema, literatura, fotografia, arte, poesia...
* Agora em novo endereço: www.mineirasuai.com *

30 agosto 2006

O Futuro da Língua Portuguesa...

* Novo endereço do Mineiras, uai! www.mineirasuai.com *
(Mais uma da série: Gramáticas da Vida...)

Eis aqui um programa de cinco anos para resolver o problema da falta de autoconfiança do brasileiro na sua capacidade gramatical e ortográfica. Em vez de melhorar o ensino, vamos facilitar as coisas, afinal, o português é difícil demais mesmo.

Para não assustar os poucos que sabem escrever, nem deixar mais confusos os que ainda tentam acertar, faremos tudo de forma gradual.

No primeiro ano, o "Ç" vai substituir o "S" e o "C" sibilantes, e o "Z" o "S" suave. Peçoas que açeçam a internet com freqüênçia vão adorar, prinçipalmente os adoleçentes. O "C" duro e o "QU" em que o "U" não é pronunçiado çerão trokados pelo "K", já ke o çom é ekivalente. Iço deve akabar kom a konfuzão, e os teklados de komputador terão uma tekla a menos, olha çó ke koiza prátika e ekonômika.

Haverá um aumento do entuziasmo por parte do públiko no çegundo ano, kuando o problemátiko "H" mudo e todos os acentos, inkluzive o til, seraum eliminados. O "CH" çera çimplifikado para "X" e o "LH" pra "LI" ke da no mesmo e e mais façil. Iço fara kom ke palavras como "onra" fikem 20% mais kurtas e akabara kom o problema de çaber komo çe eskreve xuxu, xa e xatiçe.

Da mesma forma, o "G" ço çera uzado kuando o çom for komo em "gordo", e çem o "U" porke naum çera preçizo, ja ke kuando o çom for igual ao de "G" em "tigela", uza-çe o "J" pra façilitar ainda mais a vida da jente.

No terçeiro ano, a açeitaçaum publika da nova ortografia devera atinjir o estajio em ke mudanças mais komplikadas serão poçiveis. O governo vai enkorajar a remoçaum de letras dobradas que alem de desneçeçarias çempre foraum um problema terivel para as peçoas, que akabam fikando kom teror de soletrar. Alem diço, todos konkordaum ke os çinais de pontuaçaum komo virgulas dois pontos aspas e traveçaum tambem çaum difíçeis de uzar e preçizam kair e olia falando çerio já vaum tarde.

No kuarto ano todas as peçoas já çeraum reçeptivas a koizas komo a eliminaçaum do plural nos adjetivo e nos substantivo e a unificaçaum do U nas palavra toda ke termina kom L como fuziu xakau ou kriminau ja ke afinau a jente fala tudo iguau e açim fika mais faciu. Os karioka talvez naum gostem de akabar com os plurau porke eles gosta de eskrever xxx nos finau das palavra mas vaum akabar entendendo. Os paulista vaum adorar. Os goiano vaum kerer aproveitar pra akabar com o D nos jerundio mas ai tambem ja e eskuliambaçaum.

No kinto ano akaba a ipokrizia de çe kolokar R no finau dakelas palavra no infinitivo ja ke ningem fala mesmo e tambem U ou I no meio das palavra ke ningem pronunçia komo por exemplo roba toca e enjenhero e de uzar O ou E em palavra ke todo mundo pronunçia como U ou I, i ai im vez di çi iskreve pur ezemplu kem ker falar kom ele vamu iskreve kem ke fala kum eli ki e muito milio çertu ? os çinau di interogaçaum i di isklamaçaum kontinuam pra jente çabe kuandu algem ta fazendu uma pergunta ou ta isclamandu ou gritandu kom a jenti e o pontu pra jenti sabe kuandu a fraze akabo.

Naum vai te mais problema ningem vai te mais eça barera pra çua açençaum çoçiau e çegurança pçikolojika todu mundu vai iskreve sempri çertu i çi intende muitu melio i di forma mais façiu e finaumenti todu mundu no Braziu vai çabe iskreve direitu ate us jornalista us publiçitario us blogeru us adivogado us iskrito i ate us pulitiko i u prezidenti olia ço ki maravilia.

Iço s/ fala di abrevçs, q eh mto baum, a gte vai tkla rpdaum, blz?


Ps.: Recebi este texto por e-mail sem citação de fonte.
Ps.2: Tomara que isso nunca aconteça!

Ana.


* Novo endereço do Mineiras, uai! www.mineirasuai.com *

21 agosto 2006

Gerundiando

Este texto foi feito especialmente para que você possa estar recortando, imprimindo e fazendo diversas cópias, para estar deixando (deixar) discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar falando sem estar espalhando essa praga terrível que parece estar se disseminando na comunicação. Além disso, você pode também estar transmitindo por fax, remetendo pelo correio ou enviando pela Internet.

Não estão sabendo do que eu estou falando?

Gerúndio, eis a questão. Mas não estou me importando com isso... O mais importante é estar garantindo (garantir) que os gerundistas vão estar recebendo esta mensagem, de modo que possam estar lendo e, quem sabe, consigam até mesmo estar se dando conta da maneira como tudo o que costumam estar falando deve estar soando um verdadeiro pavor para quem precisa estar ouvindo o que for dito.

Sinta-se livre para estar difundindo tantas vezes quantas você vá estar julgando necessárias para estar atingindo o maior número de pessoas infectadas por esta epidemia de transmissão oral ou escrita. É por isso que estou postando este texto no blog. Para estar alcançando todos aqueles que estiverem blogando, navegando pela internet ou apenas surfando pela web.

Mais do que estar repreendendo ou até mesmo caçoando, o objetivo deste movimento é estar fazendo com que esteja caindo a ficha das pessoas que costumam estar falando desse jeito sem estar percebendo.

Temos que estar nos unindo para estar mostrando aos nossos interlocutores que, sim, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito.

Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados a estar migrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a estar ouvindo frases aberrantes o dia inteirinho.

Sinceramente: nossa paciência tem estado a ponto de estar estourando.

Um simples "Eu vou estar transferindo a sua ligação" que eu vá estar ouvindo, poderá chegar a estar provocando alguma reação inesperada. Eu não vou estar me responsabilizando pelos meus atos. As pessoas precisam estar entendendo a maneira como esse vício maldito conseguiu estar entrando na linguagem do dia-a-dia.

Você dispensa o verbo auxiliar e o verbo de ação no gerúndio e aplica diretamente o mesmo verbo de ação no infinitivo!

É uma construção elegante, limpa, correta, muito mais fácil e com significado claro e indubitável! Vamos despachar para bem longe do nosso belo idioma essas construções aberrantes!

A regra é clara: depois de verbo auxiliar no infinitivo NUNCA se aplica verbo de ação no gerúndio!

Ana.

Ps.: Recebi esse texto por e-mail sem citação de fonte e fiz uma adaptação ao blog.

20 agosto 2006

DIRETO DO TÚNEL DO TEMPO....

Para os que se lembraram ou não, o mês de agosto foi o mês de aniversário do 'Mineiras Uai!', 02 anos de textos hilariantes, dramáticos, culturais, populares e interessantes... Enfim, tudo feito com o máximo de carinho para nossos leitores.


Ano passado, em nosso primeiro ano, fizemos uma seleção dos textos mais comentados do ano anterior. Desta vez, viajamos no túnel do tempo para relembrar nossas primeiras palavras por aqui...

"Amigos,
Hoje é o nosso primeiro dia, mais precisamente, nossos primeiros minutos.... Tivemos a idéia de fazer este blog por vários motivos, e aqui elencaremos alguns:
  • Trabalhamos juntas e nos divertimos prá valer falando bobagem no trampo (deixa o chefe ler isso!!!);
  • Não queremos perder contato umas com as outras, já que NADA é para SEMPRE, assim como os empregos...
  • A gente já viveu muita coisa nesta vida de meu Deus, e não custa nada compartilhar com quem tem vontade de ler, rir, se divertir;
  • Temos lido na net vários blogs neste mesmo estilo, que achamos interessantes e nos deram a idéia de fazer um nosso;
  • E outras 'cositas más'.
Esperamos que gostem - e que nós também, para fazer este 'troço' dar certo, pois vai ser preciso muita idéia fértil na cachola prá vencer o desafio de atualizar sempre o nosso cantinho!!!"
Muita coisa mudou desde então, e as 'mineiras, uai!', que eram só 03, passaram a ser 04, com a entrada da Bela. A Dô foi morar em Londres e ficou mais difícil escrever aqui suas histórias sempre mirabolantes e seus casos de rachar o bico. Assim, os textos se diversificaram e inúmeros leitores novos se tornaram amigos e fiéis ao blog, como a Brena e seus homens complicados, a alma da Dé Tolentino, a transparente Nayra, o bico do João Guandalim, a cachorrada do Thiago Quintela, o balaio mineiro do Cadinho Roco, o Beaggle da Elza, as blogagens do Gus... Até a Ana Maria Gonçalves passou por aqui!

Outros já eram fiéis desde o nosso 1º aninho, como a Jacque, a Magui, a Sônia Sant'anna, o João Lenjob, o Soié, Roma Dewey, Flá & Tex, Mauro Castro, Sidnei Ribeiro, Jerico, as Maries (Cris & Jane), o Anderson ... E, claro, não podemos nunca nos esquecer dos já velhos amigos de blogagem, que nos acompanham desde o início dos tempos, como o a Luma, o Queiroz, a Yvonne e todo o pessoal do Nós por Nós, o Cláudio Costa, o Idelber, Biajoni, Guto, Mônica, Anderson, Iarinha, Dom Afonso, Dita, Krika, Alex Castro,Velasco... Isso tudo sem contar os fantásticos blogs que descobrimos por aí em nossas andanças cibernéticas, como o GravataiMerengue, Inagaki, e o Alessandro Martins!

Claro que não poderíamos deixar de citar aqui nossas musas inspiradoras, aquelas que nos motivara me fizeram brotar na cabeça destas que vos escrevem a idéia do "Mineiras, Uai": são elas, as sempre irreverentes e inigualáveis... Garotas que Dizem Ní Ní Ní Ní!!!!!!!!!!!!!!!!!

Ah, se nos esquecemos de alguém, 1.000.000 de perdões, mas é tanta gente que conhecemos nestes 02 anos, uns até pessoalmente, outros nem tanto, muitos que vieram e nunca comentaram, outros que preferem mandar mail, uns que andam sumidos, outros que vinham e não vêm mais, os desertores - que abandonaram seus blogs, etc, etc, etc.

E as perspectivas para o terceiro ano????

Mais textos temáticos, posts e contos escritos a 6 mãos, convidados especiais, entrevistas, fotos, e muita diversão garantida!

Que venha o 3!!!!!!!!!!!!


Beijocas das

Mineiras, Uai!



Photos By: Bright Tal.

19 agosto 2006

16 agosto 2006

Saudade

Dizem que a palavra "saudade" só existe na nossa língua. Sabemos, no entanto, que sentir saudades não é privilégio nosso. Outras línguas, outros artistas, outros poetas, também descobriram uma forma de expressar saudade. Mas "saudade", palavra genuinamente portuguesa, não encontra tradução em língua alguma!

Mas, enfim, o que tem de tão especial e sui generis a palavra saudade? Será que já tentamos traduzir para nós mesmos o sentido desta palavra?

Primeiro, saudade não é única e simplesmente uma palavra. Não podemos ser simplistas a ponto de reduzir tudo o que há de belo na saudade a uma palavra constante do dicionário...Traduzir um sentimento por uma palavra sempre foi o maior dos desafios do homem sensível: transformar sentimentos em coisas palpáveis, visíveis, compreensíveis. Este é o incomensurável presente que a racionalidade nos oferece.

Saudade não pode ser apenas uma palavra, pois palavras são imperfeitas, palavras são humanas demais para demonstrar todos os sentimentos que se escondem por trás delas.
Saudade é o sentimento reconfortante de chegar a um lugar conhecido após dias de busca desenfreada pelos caminhos da solidão. Saudade é o lar daquele que se encontra perdido, é o fio de esperança que nos conduz nos confins da memória, e nos permite saborear, intactos, momentos repletos de felicidade.

No entanto, a saudade nunca deve ser confundida com tristeza ou melancolia. A saudade é o maior trunfo que um ser humano pode carregar em si, pois é a manifestação mais profunda da consciência diante da inexorabilidade do tempo, da vivência que se completa quando germina uma lembrança, do caminho percorrido no árduo trajeto da vida. É o sentimento que nos traz a certeza de termos sido felizes um dia, mesmo que esse dia tenha passado. Quem tem saudade pode dizer: vivi – ou melhor, estou vivo! Sentir saudades não é ficar prezo ao passado, mas poder dizer, sem hesitar, que viver vale a pena.

Saudade é a faculdade de trazer para o presente os sentimentos do passado, as alegrias de um dia perdido no tempo, é um privilégio que só podem gozar aqueles dotados de alma sensível, capazes de ver a beleza da vida em pequenas coisas.

A saudade é a arte de perceber o valor das minúsculas porções de felicidade esparsas pelo tempo, que como impiedoso e violento vento, destrói tudo com sua passagem, e, como que por crueldade, nos deixa incólumes para observar as ruínas de tudo que se foi...

Bela

14 agosto 2006

Mineirês

Ouvi dizerem que o sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar das mineiras ficou de fora?

Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso? Assino achando que ela me faz um favor. Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.

Mas, se o sotaque desarma, as expressões são capítulos à parte. Não vou exagerar, dizendo que a gente não se entende... Mas que é algo delicioso descobrir, aos poucos, as expressões daqui, ah isso é...

Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: "pó parar". Não dizem: onde eu estou? dizem: "ôncôtô?"). Parece que as palavras, para os mineiros, são como aqueles chatos que pedem carona. Quando você percebe a roubada, prefere deixá-los no caminho.

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs. Digo-lhes que não.

Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é "bom de serviço". Pouco importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro - metaforicamente falando, claro – ele é bom de serviço. Faz sentido...

Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: "cê tá boa?" Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela está boa, é como perguntar a um peixe se ele sabe nadar. Desnecessário.

Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: - Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc).

O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.

Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você "não dá conta". Siôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz:

- Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô.

Esse "aqui" é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, olá, me escutem, por favor. É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.

Mineiras não dizem "apaixonado por". Dizem, sabe-se lá por que, "apaixonado com". Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: "Ah, eu apaixonei com ele...". Ou: "sou doida com ele" (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro). Elas vivem apaixonadas COM alguma coisa.

Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de bonitim, fechadim, e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo: "E aí, vamos?". Não caia na besteira de esperar um "vamos" completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.

Na verdade, o mineiro é o baiano lingüístico. A preguiça chegou aqui e armou rede. O mineiro não pronuncia uma palavra completa nem com uma arma apontada para a cabeça.

Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, o mineirês. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas. Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer: - Eu preciso de ir.

Onde os mineiros arrumaram esse "de", aí no meio, é uma boa pergunta. Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório. Deixa eu repetir, porque é importante. Aqui em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum. Entendam... Você não precisa ir, você "precisa de ir". Você não precisa viajar, você "precisa de viajar". Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará: - Ah, mãe, eu preciso de ir?

No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra "um tanto de coisa". O supermercado não estará lotado, ele terá "um tanto de gente". Se a fila do caixa não anda, é porque está "agarrando lá na frente". Entendeu? Deus, tenho que explicar tudo. Não vou ficar procurando sinônimo, que diabo. E não digo mais nada, leitor, você está agarrando meu texto. Agarrar é agarrar, ora! Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará: "- Ai, gente, que dó".

É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras. Eu aviso que vá se apaixonar na China, que lá está sobrando gente. E não vem caçar confusão pro meu lado.

Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro "caça confusão". Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele "vive caçando confusão".

Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é muitíssimo bom (acho que dá na mesma), ela, se for jovem, vai gritar: "Ôu, é sem noção". Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora, idéia do tanto de bom que é. Só não esqueça, por favor, o "Ôu" no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?

Ouço a leitora chiar: "- Capaz..." Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer "tá fácil que eu faça isso", com algumas toneladas de ironia. Gente, ando um péssimo tradutor. Se você propõe a sua namorada um sexo a três (com as amigas dela), provavelmente ouvirá um "capaz..." como resposta. Se, em vingança contra a recusa, você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: "ô dó dôcê". Entendeu agora?

Não? Deixa para lá. É parecido com o "nem...". Já ouviu o "nem..."? Completo ele fica: "- Ah, neeeeem..."

O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: "Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?". Resposta: "neeeem..." Ainda não entendeu? Uai, nem é nem. Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?

A propósito, um mineiro não pergunta: "você não vai?". A pergunta, mineiramente falando, seria: "cê não anima de ir"? Tão simples. O resto do Brasil complica tudo. "É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem..."

Ei, leitor, pára de babar. Que coisa feia. Olha o teclado todo molhado. Vai dar curto circuito! Chega, não conto mais nada. Está bem, está bem, mas se comporte.

Falando em "ei...". As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o "ei" no lugar do "oi". Você liga, e elas atendem lindamente: "eiiii!!!", com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade...

Tem tantos outros... O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.

Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar: - Ah, fui lá comprar umas coisas... "- Que' s coisa?" - ela retrucará.

Acreditam? O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.

Ouvi de uma menina culta um "pelas metade", no lugar de "pela metade". E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará: - Ele pôs a culpa "ni mim".

A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas... Ontem, uma senhora docemente me consolou: "preocupa não, bobo!". E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: "não se preocupe", ou algo assim. A fórmula mineira é sintética e diz tudo.

Até o tchau. em Minas. é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente. Aqui se diz: "tchau pro cê", "tchau pro cês". É útil deixar claro o destinatário do tchau. O tchau, meu filho, é prôcê, não é pra outro, 'tendeu?

(Recebi este texto, escrito por um paulista, por e-mail, e adaptei "um tiquim" pra por aqui no blog.)

Praça do Papa
Belzonte, uai!

Beijos procês!

Ana.

08 agosto 2006

Jeitinho Irritante

Não adianta. Quando estou naqueles dias, um fio de cabelo na minha sopa pode virar a bomba H. Uma frase do Mainardi que você lê na Veja de manhã pode virar uma entrevista interminável com Dunga (?), que por sua vez transforma-se num bate boca sem pé nem cabeça com seu irmão, ou seu pai, ou os dois juntos, ou... Ah! Com quem estiver na frente.

Portanto, se não quiser provocar este tipo de coisa, respeite o direito único e incontestável de uma mulher de pelo menos lavar o rosto de manhã, sem ter que ouvir o “Foda-se, já estou debaixo do chuveiro, agora se vira.”.

Aaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! Meus sais!!!

Sabe o que é mais engraçado? É que é sempre neste tipo de dia que ocorrem as coisas mais inusitadas: um engarrafamento na subida – em rua com inclinação de 50º – uma motoca que faz a curva da esquina sem nem verificar se vem carro ou não, perguntas impertinentes vindas de quem você menos esperava escutá-las...

Mas o mais irritante ainda, nestes, ou em quaisquer outros dias, é perceber o quão são egoístas as pessoas, o quanto o brasileiro fica querendo se dar bem passando em cima de outros, até mesmo de leis, e etc. Outro dia mesmo no trabalho me apareceu um administrador municipal querendo, a todo custo, me convencer de que ele poderia contratar determinada empresa sem realizar licitação. Para quem não conhece direito público, vou explicar: LICITAÇÃO É REGRA, E NÃO EXCEÇÃO. Portanto, se você trabalha na administração pública, saiba que serão pouquíssimas as vezes em que poderá contratar algo, ou alguém, sem realizar a tal da licitação pública. Simplesmente, conforme-se. É a única coisa que tenho a dizer. Não há jeitinho que se arranje.

No caso desse sujeito mesmo, não tinha jeito. Até o Tribunal de Contas já tinha expedido diversas notas proibindo a contratação direta em casos como o dele. E o mesmo cismou de me falar que esta só poderia ser uma regra minha...

Jeitinho brasileiro... Não dá. Pra mim, é o fim da picada.

Ô jeitinho irritante!!!

08 Agosto 2006
Charge de Oldack Esteves - Publicada no Estado de Minas, 08/08/2006.

Ana.

06 agosto 2006

SOLIDARIEDADE E DOAÇÃO


Como todo ano, no mês de agosto ocorre o evento “Criança Esperança”, patrocinado pela Rede Globo, que reúne artistas, pessoas famosas, gente comum e simples em prol de uma causa nobre: ajudar a construir um mundo melhor para crianças carentes.
Este ano o evento comemora 10 anos de existência e tende a expandir mais pelo Brasil. Hoje, apenas 04 Estados têm o projeto concretizado (Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco e São Paulo), e nós, mineiros, temos o privilégio de receber a ajuda no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, com vários projetos de educação, cultura e lazer sendo realizados. Claro que por trás destes projetos há patrocínio de prefeituras, empresas nacionais e multinacionais, emissoras de televisão, etc e da própria Unesco. Mas sem a ajuda individual de cada pessoa, muitos projetos ficariam só no papel.

“Quem dá aos pobres, empresta a Deus”, mas não é só por isso que temos que ajudar ao próximo, a solidariedade também é uma dádiva que faz bem ao coração. A doação pode ser muita ou pouca, mas é sempre de grande valia.
Não precisamos só ajudar com dinheiro, porque às vezes também estamos sem um trocado no bolso. Mas tem muita ajuda que não custa nada, uma roupa que não se usa mais, sapato que já saiu de moda, uma palavra de carinho, um gesto de ajuda, um sorriso de fraternidade... tudo é bom!
E vale a pena ajudar, é gratificante!

Há também uma campanha legal promovida pela emissora SBT, que é o “TeleTon”, com o objetivo de ajudar crianças com deficiência física e mental. Normalmente o “TeleTon” ocorre no mês de outubro, mas a forma de ajudar é a mesma promovida pelo “Criança Esperança” (não escquecendo que a ajuda pode ser feita durante todo o ano, não apenas nos meses de agosto e outubro).
Mas fora estes eventos há muitas outras formas de doação. Fico sensibilizada com os doadores de sangue, de medula, de rins, de córneas, de coração, da própria vida pelos outros.
Meu recado está dado, formas de ajudar não faltam, quem quiser não precisa nem sair de casa para fazer sua parte.

Então, doe-se!
Não custa nada para você e ajuda muito o outro!

Beijos


02 agosto 2006

"Pega o ladrão!"

Sempre me disseram que a Praça da Assembléia é um lugar perigoso, sobretudo no final da tarde, pois muitos meliantes lá se refugiam para passar a noite.

Apesar do aviso, lá estava eu, esperando o ônibus para me levar pra casa. No ponto de ônibus, quase deserto, apenas uma velhinha estava sentada, segurando, apertada contra o peito, a bolsa de crochê.

Eis que surge uma menina, lá pelos seus 12 anos, descalça e suja, nos encarando de forma petulante.

Julgando que se tratava de uma pedinte, eu já me preparava para murmurar que tinha apenas o dinheiro da passagem quando a menina se dirigiu à velhinha:

- "Ei, troca pra mim dez notas de um real por uma de dez?"

A velhinha, inocentemente, já ia abrindo devagar a sua bolsa para atender ao estranho pedido da menina quando eu me vi obrigada a intervir:

-"Não faça isso, minha senhora! Talvez ela vá se aproveitar para pegar o seu dinheiro..."

E a menina logo interrompeu, atrevidamemente:

- "O que você tem a ver com isso? Cala a boca e me deixa em paz!"


A velhinha, convencida de que se tratava de um pedido sem segundas intenções, estendeu para a menina uma nota de dez reais, esperando em troca as dez notas amarfanhadas de um real.

Assim que tocou a nota de dez reais, a menina soltou uma gargalhada fenomenal, e saiu correndo com o dinheiro da velhinha, quando eu, na mesma hora, soltei os livros que estava carregando e consegui segurá-la pelos cabelos, tomando de suas mãos a nota da velhinha.

Dessa vez gritando de dor, a menina correu em direção oposta, e sumiu.

A velhinha, estarrecida, ainda estava sentada no ponto de ônibus quando lhe entreguei sua nota de dez reais. Foi quando percebi que também tinha nas mãos as dez notas de um real da menina.

Nessa hora, ouvimos um grito:

- "Pega o ladrão! Pega o ladrão! Ele levou o meu dinheiro!"

Mas o grito não era para mim, alguém também tinha acabo de ser assaltado!

O que eu fiz com o dinheiro da menina? Peguei um táxi, por via das dúvidas, e também porque andar pela Praça da Assembléia à noite é mesmo muito perigoso.

Bela